Apresentação conectou a força da nova voz do rap, com repertório do álbum ‘Epifania’, ao samba já consolidado de Pâmela em noite marcada por tributo a Horacina Corrêa.
A noite da última sexta-feira (2) transformou o Teatro Oficina Olga Reverbel, no Multipalco Eva Sopher, em um verdadeiro epicentro da cultura urbana e ancestral do Rio Grande do Sul. O palco, preparado para a programação do projeto “Horacina Corrêa convida – Uma voz abre caminho para outras vozes”, testemunhou um encontro histórico: Cristal, uma das novas vozes mais potentes do rap gaúcho, dividiu os holofotes com a força e a trajetória já consolidada de Pâmela Amaro, costurando rap, soul, samba e poesia em um espetáculo imersivo.
A força do ao vivo e a essência de ‘Epifania’
Desde a primeira música, ficou evidente o primor técnico e musical da apresentação. Cristal construiu seu show sobre a base de uma banda extremamente alinhada — um detalhe que elevou a execução rítmica e garantiu a pressão orgânica necessária para a performance ao vivo. Com essa precisão instrumental, a artista passeou por seu repertório trazendo um pouco da essência do seu elogiado álbum Epifania (2024), dominando o espaço com uma presença de palco magnética e madura.
Manifesto de identidade e exaltação aos talentos locais
Mas a força da noite foi muito além dos arranjos. A apresentação assumiu contornos de um manifesto contundente sobre identidade. A todo instante, Cristal transbordou o orgulho de ser quem é, escancarando a potência e a representatividade das vozes negras no estado. Representando a nova geração, ela fez questão de utilizar seu microfone para reverenciar quem faz a cena acontecer ao seu redor hoje. De forma generosa, exaltou constantemente artistas pretos e talentos do RS, com menções vibrantes a nomes como MDN BEATS, Duda Raupp e tantos outros que pavimentam a cultura atual.
Ancestralidade em pauta: a chegada de Pâmela Amaro
O espetáculo ganhou ainda mais densidade com a entrada de Pâmela Amaro. Trazendo a bagagem artística profunda de quem já tem uma caminhada sólida na música do estado, Pâmela incorporou as raízes da africanidade, do jongo e do partido alto presentes em seu disco Samba às avessas. O encontro entre o frescor urbano de Cristal e a base rítmica ancestral do samba de Pâmela evidenciou que a música negra gaúcha é um fio contínuo e inquebrável, onde o novo e o tradicional dialogam em perfeita harmonia.
O legado de Horacina Corrêa e os caminhos abertos
Toda essa catarse coletiva orbitava em torno de uma homenagem maior, idealizada por Álvaro RosaCosta: o resgate histórico de Horacina Corrêa. A “Patativa do Sul”, que na década de 1930 quebrou paradigmas como a primeira cantora gaúcha e mulher negra a gravar um disco nos padrões industriais, foi o elo fundamental da noite. O círculo se fechou perfeitamente: a pioneira Horacina, a consolidada Pâmela e a força arrebatadora de Cristal.
Foi um show para se absorver a qualidade sonora, mas, acima de tudo, para testemunhar o fortalecimento de um movimento que atravessa o tempo. Uma noite em que ficou claro que os caminhos desbravados lá atrás seguem muito bem trilhados por essas grandes vozes.
Próxima edição do projeto: O ciclo de encontros continua no dia 30 de outubro, às 19h, também no Teatro Oficina Olga Reverbel. A próxima edição trará Loma Solaris convidando a cantora Stephanie Soeiro e a violonista Vitória Pereira.
Os ingressos (R$ 20 meia-entrada e R$ 40 inteira) podem ser adquiridos online ou na bilheteria do Multipalco.

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